Bate-papo: a linguagem secreta do corpo

Estados de ânimo, problemas posturais e dores crônicas podem se revelar muito mais do que simples manifestações físicas. O corpo fala. Mas é preciso saber ouvi-lo. É exatamente o que propõe a terapia morfoanalítica, que associa uma série de exercícios posturais à psicanálise. Criada pelo francês Sèrge Peyrot, a morfoanálise busca acessar o componente psicoemocional por trás de males corporais e psíquicos. ”O trabalho físico ajuda a despertar circuitos sensoriais apagados e recuperar a capacidade de se sentir vivo dentro do próprio corpo”, explica Peyrot, que estará no Brasil na primeira semana de abril para dar um workshop na sede da Associação Brasileira de Terapia Morfoanalítica, em São Paulo.

Por que a necessidade de unir a psicanálise à fisioterapia?

No primeiro ano do curso de fisioterapia, na universidade de Marselha, li ”O corpo tem suas razões”, de Thérèse Bertherat, e fiquei encantado ao descobrir as conexões entre corpo e psique. Fui aluno de Françoise Mézières, pioneira da reeducação postural global (RPG), que teve a intuição de que uma das principais causas de deformações posturais é o excesso de tensão. Com a prática, vi que ao mesmo tempo em que desbloqueavam tensões musculares, alguns pacientes experimentavam desbloqueios emocionais, liberando tristeza, raiva, amor, lembranças que se expressavam espontaneamente.

Em vez de ignorá-los, o sr. quis agregar os sentimentos ao tratamento?

Até então, estas manifestações eram consideradas um efeito não desejado. Mas eu sentia que os sentimentos e emoções eram a expressão autêntica e espontânea do conteúdo inconsciente de tensões musculares. E não podiam ser excluídos do trabalho. Grande quantidade de energia reprimida se descarregava nas sessões. Eu propunha que os pacientes verbalizassem o que acabavam de viver. O que podia aparecer como manifestações emocionais sem sentido, se revelava a expressão e ao mesmo tempo a tomada de consciência de traumas psicoafetivos antigos, que estavam ”guardados” no corpo em forma de tensão muscular.

Há semelhanças com a terapia reichiana, que também propõe acessar as emoções via corpo?

Sim. A morfoanálise define um novo método de trabalho do que W.Reich, discípulo de Freud, chamava de ”couraça muscular”, e que os psicanalistas Esther Bick e Didier Anzieu chamaram de ”a segunda pele muscular”. Com a diferença que a terapia morfoanalítica traz uma abordagem fisiológica e bio-mecânica, e uma compreensão anatômica muito concreta da organização do sistema muscular e de suas conseqüências posturais.

Assim como a fisioterapia não foi suficiente, o tratamento baseado apenas no discurso não basta?

A divisão entre Soma (corpo, em grego) e Psique (mente, em grego) só existe na mente de alguns cientistas. Os pacientes não vivem essa separação, e quando a vivem é sinal de desequilíbrio. Com a formação psicanalítica, aprendi a entender, acompanhar e elaborar todas as emoções, até as mais arcaicas. Mas a liberação da energia emocional não é suficiente para curar! É preciso oferecer ao paciente a possibilidade de elaborar os conteúdos inconscientes dessas manifestações. O que cura profundamente é a ampliação da consciência. Quando o corpo começa a falar e a mente a sentir, a pessoa descobre uma nova dimensão e compreensão de si mesma.

Que doenças a morfoanálise trata?

Damos toda atenção à somatização, que tratamos concretasomassomamente com técnicas corporais sofisticadas, ao mesmo tempo em que utilizamos a somatização como ponto de partida para decifrar seu significado inconsciente. Quando a dor de existir não encontra palavras para expressar-se, fala através do corpo. Quando as palavras se organizam num corpo que sente, a dor pode ser vivida, compreedida e reparada.

O sr. propõe uma interpretação do corpo tal qual Freud propôs uma interpretação dos sonhos?

Freud dizia que o sofrimento é reminiscente, ou seja, é um traumatismo que aconteceu no passado e se manifesta no presente. A manifestação pode ser psíquica ou somática, e na maior parte do tempo as duas formas estão associadas. Se o paciente consegue rememorar a causa do passado, ele vai poder se livrar da somatização ou da manifestação emocional no presente. Mas a afirmação de Freud de que o acesso aos traumatismos precoces não resolvidos só pode ser feito através dos sonhos é incompleta. A outra via de acesso ao inconsciente arcaico (pré-natal, perinatal, e os dois primeiros anos de vida) é o corpo. Só o corpo pode permitir o retorno de um material inconsciente registrado no campo sensorial.

E os sonhos, também têm um papel na morfoanálise?

Claro! Aliás, o trabalho corporal estimula a produção de sonhos, já que a memória inconsciente é mobilizada. Como dizia Ferenczi, amigo e discípulo de Freud, verdadeiro pai de todas as terapias psicocorporais: o objetivo da análise dos sonhos é estabelecer um acesso direto à memória sensorial. E decifrar o sentido simbólico dos sonhos ao associá-lo ao corpo para encontrar novos laços e descobrir novas sensações. Nossa experiência mostra que as associações de sensações têm tanto valor para o inconsciente quanto as associações de idéias ou a interpretação dos sonhos. Isto nos permite trabalhar com pacientes que não sonham ou sonham pouco, ou que sofrem de amnésia infantil, ou são incapazes de associar livremente os pensamentos. É entusiasmante constatar como, a partir do corpo, despertam e se articulam palavras de prazer, metáforas, o imaginário… A terapia morfoanalítica pode tratar estes pacientes que são incapazes de se submeter a uma terapia exclusivamente verbal. Produzimos o pensamento a partir do corpo e ”incorporamos” as palavras para lhes dar carne. Descobrimos então que o corpo todo pensa, basta solicitá-lo.

Fonte: Jornal do Brasil.